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| Mentira ou mentira piedosa |
Texto: António Matias
Muito se fala em mentira, mais ainda se tenta aceitar muitas
mentiras sobre a ideia de que algumas são o que chamamos mentiras piedosas.
São aquelas que dizemos para que o outro não se sinta mal,
acaba por ser muitas vezes uma distorção da verdade para cumprir um outro
objectivo que consideramos mais importante.
O problema é que mentir é isso mesmo, faltar à verdade.
Quando as usamos de forma perfeitamente banal com crianças estamos a criar um
problema … estamos a dizer-lhes que afinal há momentos em que podemos fugir à
verdade.
Com esta premissa temos uma criança a procurar jogar esta
brincadeira connosco e quando começa a sua juventude, onde os problemas e a
traquinice se tornam mais perigosos, a tal mentira piedosa pode ser a diferença
entre termos a verdade ou… um conjunto de meias-verdades.
Afinal por mais brincadeira que possa ser, acaba por ser
muito facilmente usada para evitar o castigo.
Podemos e devemos brincar, mas… imediatamente, temos que
mostrar que não é verdade e para que não fiquem dúvidas, não sobre o conteúdo
mas sobre esta forma de brincar.
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| António Matias no palco do Barreiro Agora Speakers |
Como sabemos as crianças e os jovens são perfeitas esponjas
de conhecimento, vão aprender muito rápido a usar este mecanismo. Claro que não
é só por não o utilizarmos que a criança vai deixar de ter contacto com ele, na
escola e noutros locais vai ser confrontada com isso.
Por isso fica a dúvida, não devemos utilizar ou devemos gerir?
Ou seja, utilizar para que perceba que existe, mas desmascarar o embuste de
imediato?
Eu concordo muito com a segunda opção, esconder o
conhecimento, principalmente quando ele está a toda a nossa volta, ainda por
cima que pode ser usado de forma imprópria, não vai trazer bons resultados.
Temos que o transmitir, mas saber ver o que é, onde se usar e como deve e pode
ser utilizado.
A sociedade actual confunde muito a verdade com a mentira
piedosa. Afinal honestidade é "dizer a verdade, toda a verdade e nada mais
que a verdade", a versão mais usual é "Dizer a verdade, e somente
parte da verdade, na medida em que nos serve e ninguém se sente magoado".
E este é o raciocínio presente nas consistentes e persistentes mentiras
piedosas, que dizemos aos outros todos os dias.
Quando queremos dizer algo que magoa, quando sabemos que
vamos criar ideias negativas ou algo que vai magoar, procuramos uma frase que
“doura a pílula”.
Muitas vezes, acabamos por usar uma derivação… a chamada
meia-verdade. Ou seja, o que dizemos é verdade, mas não é só aquilo que está
relacionado, há mais, mas o resto não interessa, isso vai causar desconforto.
Como se diz na gíria popular “Mais depressa se apanha um
mentiroso que um coxo” o que acaba por mostrar que “A mentira tem perna curta”.
Quando dizemos que está tudo bem com aquela cara de que queremos acabar com
tudo à nossa volta, criamos muitas vezes, principalmente se o interlocutor é
alguém que nos quer bem, a ideia de que pode ser ele o causador de tal
situação. Deixá-lo infeliz em vão.
Daí que tenhamos que concluir que temos que saber dizer as
verdades, no Agora Speakers praticamos o método sanduiche ao dar a nossa
opinião/feed-back, que não é mais do que saber dizer sem magoar, o trocar a
forma de dizer …fizeste isto mal… para… na próxima podes fazer desta outra
forma que vai provavelmente funcionar melhor… é um grande exemplo disso.
A verdade e não mais que a verdade, mas com o espírito
positivo e de ajuda.
Para terminar e dar um toque de humor ao último tópico que é…
nem sempre conseguimos garantir o resultado da mentira… mesmo que piedosa!!!
A freira vai ao médico:
- Doutor, estou com um ataque de
soluços horrível. Não consigo comer nem dormir.
- Tenha calma, irmã, que vou
examiná-la.
Após o exame diz:
- Irmã, a senhora está grávida!
A freira levanta-se em pânico e sai a correr do consultório.
Uma hora depois o médico recebe um telefonema da madre
superiora do convento:
- Doutor, o que é disse à irmã Carmem?
- Madre superiora, como ela tinha uma
forte crise de soluços, dei-lhe um susto tremendo dizendo que estava grávida.
Ela parou de soluçar?
- Sim, a irmã Carmem parou de soluçar,
mas o padre Paulo fez as malas e desapareceu!!!